Baleias, golfinhos sentem na pele os efeitos do aquecimento dos oceanos. Entenda o que a Ciência tem descoberto e por que isso importa para todo mundo.
Este texto inaugura uma seção do nosso site onde queremos conversar com a sociedade de forma mais descontraída e acessível. A ideia é traduzir nosso dia a dia de pesquisa, nossos achados científicos e mostrar como isso tudo se conecta com a sua vida. Espero que você goste! Este texto, em particular, é uma parceria com o blog da Limnologia UFRJ. Dá uma olhada lá também, eles têm conteúdos incríveis!
Por que estudar a megafauna marinha?
Para entender os efeitos das mudanças climáticas, a megafauna marinha é um ótimo indicador. Mas quem são eles? São os gigantes do mar: baleias, golfinhos, tubarões, tartarugas, meros e algumas aves marinhas (geralmente animais com mais de 40 kg).
Eles são bons “termômetros” da saúde do oceano por dois motivos:
- São viajantes: Muitos percorrem grandes distâncias, passando por diferentes ambientes. Com isso, indicam mudanças como aquecimento, acidificação e falta de oxigênio em vastas áreas.
- São reguladores: Por se alimentarem de diversos outros animais, evitam que uma única espécie domine o ecossistema. Se suas presas ficam escassas, a saúde da megafauna piora – um sinal de alerta para todo o ambiente.
Essas funções as tornam espécies-chave. Se elas desaparecem, todo o ecossistema pode entrar em colapso.
E no Brasil, o que está acontecendo?
A resposta é: ainda sabemos muito pouco. E é justamente aí que entra o trabalho do nosso grupo de pesquisa, o ECoMAR (Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha da UFRJ).
Nossos estudos tentam prever a redistribuição da biodiversidade por causa das mudanças climáticas. Ou seja, avaliamos como as espécies podem mudar de “endereço” no futuro, considerando diferentes cenários de aquecimento, acidificação e falta de oxigênio.
Abaixo, resumo dois desses estudos, feitos por mestrandos, doutorandos e pós-docs do nosso time, em colaboração com pesquisadores do Brasil e do exterior.
Em todos esses estudos, nossa pergunta principal foi entender como as espécies de cetáceos, na costa Brasileira poderiam ser afetadas pelas mudanças climáticas. Além disso, tínhamos um interesse específico em entender quais áreas seriam mais vulneráveis à perda dessas espécies.
Para isso, nós reunimos dados das espécies ao longo de toda costa, disponíveis em bases de dados locais e globais e acoplamos com variáveis climáticas disponíveis em bases globais, que continham informações sobre os cenários climáticos futuros produzidos por modelagem globais oceano-atmosfera do IPCC. Nós então usamos modelos matemáticos complexos para modelar a distribuição das espécies em dois cenários de mudanças climáticas para um futuro próximo, 2050. Os cenários climáticos incluíram um futuro mitigado, onde as emissões de gases de efeito estufa seriam diminuídas em um futuro próximo e um cenário não-mitigado, onde as emissões continuariam com a mesma intensidade que hoje, sem nenhuma (ou quase nenhuma) diminuição. O que pode acontecer com a distribuição dessas espécies no cenário onde existe alguma mitigação climática? Quão pior fica se a gente não fizer nada, ou seja no cenário sem nenhuma mitigação?
O Boto-Cinza

(Fruto de uma colaboração internacional com 56 especialistas)
O boto-cinza é um golfinho costeiro que vive em baías e estuários, áreas com muita atividade humana, como portos e pesca.
O que descobrimos?
O Norte e Nordeste do Brasil e o Caribe são áreas muito vulneráveis. Nossos modelos preveem que:
- No pior cenário (sem mitigação), quase 50% do habitat do boto-cinza pode ser perdido até 2060.
- Com mitigação, essa perda cai pela metade!
Ainda assim, o impacto é enorme para uma espécie tão importante para a saúde de baías e estuários.

Figura 3. Modelos de distribuição do boto-cinza em dois cenários de mudanças climáticas para 2060: cenário mitigado (figura à esquerda) e não-mitigado (figura à direita). Nesses mapas as cores vermelhas indicam que aquela região representa um habitat adequado para a espécie no presente mas que se torna inadequado no futuro em cada cenário climático (Caribe, norte e nordeste do Brasil). As cores amarelas representam áreas que são adequadas no presente e continuam adequadas no futuro. As cores azuis representam áreas que não são adequadas no presente, mas que podem se tornar adequadas no futuro (algumas pequenas porções bem ao sul do Brasil). Quanto menos mitigado o cenário, maior a intensidade de perda de habitat.
Conclusão: Ainda Dá Tempo de Mudar o Jogo
Os estudos que mostramos aqui deixam claro que as mudanças climáticas não são uma ameaça distante. Elas já estão remodelando a vida nos nossos oceanos, e os gigantes marinhos – como o boto-cinza – estão entre os primeiros a sentir os efeitos.
A perda de espécies no Norte e Nordeste do Brasil é um alerta vermelho. Mas é também um convite à ação.
O lado mais importante dessas pesquisas é que elas mostram que a mitigação FUNCIONA.
No cenário em que reduzimos drasticamente as emissões de gases de efeito estufa, a perda de habitat do boto-cinza cai pela metade. Cada décimo de grau a menos de aquecimento importa. Cada ação conta.

Isso significa que ainda temos uma janela de oportunidade. O futuro dos oceanos e da incrível biodiversade tropical não está escrito. Ele será uma consequência direta das escolhas que fizermos hoje – como sociedade, como país e como indivíduos.
A ciência já deu o seu recado. Agora, a bola está conosco. Podemos escolher o caminho da mitigação, cobrando dos nossos líderes políticas públicas eficazes e fazendo escolhas mais sustentáveis no nosso dia a dia. Ou podemos cruzar os braços e assistir a um colapso anunciado.
Vamos juntos nessa? A mudança começa com a conscientização e se fortalece com a ação.